Salário que envergonha o cargo
O edital prevê remuneração de R$ 1.990,97 para uma função técnica ligada à perícia criminal, com jornada de 40 horas semanais, exigindo ao menos ensino médio completo e aprovação em prova objetiva. Na prática, o Estado oferece pouco menos de dois salários mínimos projetados para 2026 para um cargo que lida com cena de crime, corpo humano, vestígios e toda a cadeia de custódia da prova pericial, atividades que exigem responsabilidade e preparo emocional muito acima da média.
Missão de alto risco, salário de subemprego
O auxiliar de perícia integra a estrutura da investigação criminal, apoiando peritos na coleta, preservação e análise de evidências que podem definir a condenação ou absolvição de suspeitos. Pagar menos de R$ 2 mil a quem ajuda a desvendar homicídios, estupros, acidentes graves e crimes complexos é transformar um posto de altíssima sensibilidade em emprego precarizado, empurrando profissionais a complementar renda com “bicos” e aumentando o risco de adoecimento físico e mental.
Concurso grande, atratividade mínima
São 104 vagas ofertadas, com inscrições on-line entre 7 de janeiro e 6 de fevereiro de 2026, ao custo de R$ 65,00, para uma prova marcada para 29 de março de 2026. A combinação de taxa de inscrição elevada em proporção ao salário, baixa perspectiva de progresso remuneratório e responsabilidade extrema tende a afastar candidatos mais qualificados, o que enfraquece a qualidade da própria perícia oficial e, por consequência, da investigação criminal no estado.
Estado economiza na base da segurança
Enquanto outros concursos em Minas Gerais anunciam salários que passam de R$ 16 mil ou R$ 20 mil em áreas diversas, o auxiliar de perícia da PC-MG segue relegado ao rodapé da folha de pagamento, mesmo sendo peça-chave para que a polícia consiga entregar investigações sólidas ao Ministério Público e ao Judiciário. O recado político é claro: o Estado aperta o cinto justamente na base da segurança pública, sinaliza que o trabalho técnico de bastidor vale pouco e alimenta um ciclo de desmotivação, rotatividade e fragilidade institucional.
Serviço essencial tratado como gasto supérfluo
O concurso, com validade de dois anos prorrogáveis por mais dois, deveria ser oportunidade para reestruturar de forma séria o quadro de apoio à perícia criminal em Minas Gerais. Ao insistir em um salário de subsistência para um cargo essencial, o governo mineiro transforma uma política pública de segurança em mero ajuste contábil, trata o servidor como custo descartável e empurra a sociedade a pagar, mais à frente, a conta da investigação fraca, da impunidade e da violência que não diminui.