A primeira entrevista da série é com Beu Trancista, uma imigrante de Angola que chegou cedo ao Brasil e se tornou referência na área da beleza negra.
Tribuna Conservadora: Por favor, conte um pouco sobre sua trajetória e a área de atuação do seu negócio.
Beu Trancista: Eu sou Vivalda Candeia, conhecida como Beu Trancista, e atuo na área de beleza afro e identidade cultural.
Comecei com as mãos, literalmente, trançando por amor, pela necessidade de ver beleza no que é nosso.
Hoje, sou referência na cidade, com um espaço que não apenas transforma visualmente, mas resgata autoestima, ancestralidade e orgulho de origem.
A cada trança que faço, sei que não estou apenas trançando cabelo, estou tecendo histórias e fortalecendo identidades.
Tribuna Conservadora: O que a motivou a empreender e como vê a importância do empreendedorismo na comunidade negra?
Beu Trancista: O que me motivou foi a vontade de fazer parte da mudança.
Por muito tempo, o que era nosso foi visto com preconceito, cabelo crespo, trança, turbante. Empreender, pra mim, foi uma forma de resistência e também de autonomia.
O empreendedorismo negro é ferramenta de libertação. Ele não é só sobre abrir um negócio, é sobre ocupar espaços, gerar renda e criar oportunidades para outros.
Quando uma mulher negra empreende, ela não caminha sozinha, ela abre caminho pra muitas.
Tribuna Conservadora: Quais foram os maiores desafios que enfrentou no início e como os superou?
Beu Trancista: O primeiro desafio foi ser levada a sério.
Por muito tempo, o trabalho manual foi visto como “bico” e não como profissão.
Mas eu sempre acreditei no que fazia. Busquei formação, me profissionalizei, investi na minha imagem e construí minha marca com propósito.
Hoje, quando olho pra trás, vejo que o segredo foi persistir mesmo quando duvidaram.
Eu entendi que quem tem propósito não desiste, só melhora o caminho.
Tribuna Conservadora: A mentalidade vitimista costuma ser associada à comunidade negra em discursos políticos. Como você enxerga isso e qual sua mensagem para quem quer ser protagonista da própria vida?
Beu Trancista: A vitimização é uma armadilha que impede o crescimento.
Reconhecer a dor histórica é necessário, mas ficar preso a ela é escolher não evoluir.
Eu prefiro focar no poder que tenho de transformar a minha realidade.
Ser protagonista é olhar pra si e dizer: “Eu posso, eu mereço, eu vou fazer acontecer”.
A minha mensagem é simples: ninguém vai te entregar respeito, você conquista ele com atitude, trabalho e orgulho de quem você é.
Tribuna Conservadora: Na sua opinião, quais atitudes práticas podem ajudar a comunidade negra a avançar no mundo dos negócios, deixando de lado a postura de vitimização?
Beu Trancista: Três palavras: educação, união e posicionamento.
Precisamos investir em capacitação, buscar informação e valorizar o que é nosso.
Mas, acima de tudo, precisamos parar de esperar aceitação e criar nossos próprios espaços.
Quando um negócio negro prospera, ele inspira outros.
E quando um inspira o outro, a roda gira pra todo mundo.
Tribuna Conservadora: Quais exemplos ou atitudes você destaca como fundamentais para fortalecer o empreendedorismo negro hoje?
Beu Trancista: Primeiro, representatividade real, precisamos de exemplos que mostrem que é possível.
Segundo, profissionalismo e excelência, o talento é importante, mas o compromisso e a gestão fazem o negócio crescer.
E, por fim, colaboração.
O sucesso de um não apaga o brilho do outro.
A gente cresce quando entende que a vitória de um é conquista de todos.
Tribuna Conservadora: Que papel o setor público e o privado devem desempenhar para apoiar o desenvolvimento de empreendedores negros?
Beu Trancista: O setor público precisa investir em políticas de inclusão real, com capacitação e crédito acessível.
O setor privado precisa abrir portas e quebrar estereótipos, valorizando profissionais negros pela competência e não apenas pela pauta da diversidade.
Mas acima de tudo, ambos precisam entender que apoiar o empreendedorismo negro é investir em um Brasil mais justo e produtivo.
Tribuna Conservadora: Como os leitores do Tribuna Conservadora podem apoiar negócios liderados por negros que não aceitam o lugar de vítima, mas buscam o sucesso através do trabalho duro e da responsabilidade?
Beu Trancista: Primeiro, é necessário reconhecer que o racismo é real, e que essa prática impede o crescimento quanto sociedade.
Apoiar é comprar, divulgar e respeitar o trabalho.
Mas também é mudar o olhar, enxergar o empreendedor negro como alguém que entrega excelência, resultado e valor.
Quando você escolhe investir em quem luta, sonha e trabalha, você não está só comprando um serviço, você está participando da transformação de uma história.
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