A pergunta não nasce da teologia, mas do espanto moral. Ela reaparece sempre que a realidade ultrapassa o limite do suportável. “Onde está Deus?”. Perguntamos quando a crueldade não apenas acontece, mas é organizada, registrada e sustentada por um Estado.
O fato não é novo. Ele ocorreu em 2009, na Coreia do Norte. O que é novo é o silêncio rompido. Somente agora, em 2026, a ONG Portas Abertas tornou público o caso que chocou até mesmo observadores experientes da perseguição religiosa: um bebê de dois anos de idade condenado à prisão perpétua por pertencer a uma família cristã.
Não houve julgamento no sentido clássico da palavra. Não houve crime. Houve apenas herança, não de bens, mas de fé. Um sistema que pune o sangue, a origem, a crença. Um regime que enxerga ameaça até em uma criança que mal aprendeu a falar.
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Esse não é um excesso isolado. É a expressão mais nua de um método. Na Coreia do Norte vigora o princípio da culpa por associação: três gerações podem ser punidas pelo “crime” de uma só. O objetivo não é justiça, mas extinção. Não é correção, mas terror pedagógico. Ensinar pelo medo que crer é perigoso, que pensar é arriscado, que existir fora da devoção ao Estado é imperdoável.
Que tipo de poder precisa aprisionar um bebê para se manter de pé? Não é força. É pavor, é insegurança profunda. Todo regime que se vê obrigado a esmagar os mais fracos já confessou, sem palavras, sua própria falência moral.
Diante disso, muitos perguntam: onde estava Deus em 2009, quando essa sentença foi imposta? Onde está Deus agora, quando o mundo finalmente toma conhecimento do ocorrido?
A resposta talvez incomode: Deus não estava ausente. Ausente estava a humanidade organizada. Ausentes estavam os mecanismos internacionais que se dizem guardiões dos direitos humanos. Ausente estava a coragem política de chamar o mal pelo nome quando isso custava alianças, acordos e silêncio conveniente.
A Bíblia nunca romantizou o poder. Ao contrário, expôs reis, denunciou impérios e mostrou que toda autoridade que se coloca no lugar de Deus acaba devorando inocentes. Faraó matou crianças para preservar seu trono. Herodes fez o mesmo para manter sua paranoia. Ditadores modernos apenas trocaram coroas por cargos e exércitos por burocracias.
Deus não está no decreto que condena um bebê. Ele está na denúncia que rasga o véu do esquecimento. Está na consciência que se recusa a tratar isso como estatística tardia ou “caso antigo”. Está na pergunta que não nos deixa em paz, mesmo tantos anos depois.
A verdadeira questão não é por que isso aconteceu em 2009. A questão é por que levou tanto tempo para nos indignarmos. Quantos horrores permanecem invisíveis enquanto o mundo decide o que merece atenção?
Um Estado que aprisiona uma criança por causa da fé de sua família não está apenas perseguindo cristãos. Está afirmando que o ser humano nasce sem dignidade, que a vida não tem valor intrínseco, que o indivíduo pertence ao regime antes de pertencer a si mesmo. Isso não é política externa. É barbárie estrutural.
“Onde está Deus?” Ele continua onde sempre esteve: do lado dos perseguidos, dos silenciados, dos que sofrem longe das câmeras e dos editoriais. A pergunta que realmente pesa é outra: o que faremos agora que sabemos?
Porque o mal não se fortalece apenas pela crueldade dos tiranos, mas pela normalização tardia dos que assistem. E toda vez que uma história como essa vem à tona anos depois, ela não revela apenas a violência de um regime, revela o atraso da nossa consciência coletiva.
Enquanto ainda somos capazes de nos escandalizar, ainda há esperança. O dia em que essa notícia não nos causar indignação será o dia em que a pergunta “onde está Deus?” perderá o sentido, não por falta de resposta, mas por falta de coragem de ouvi-la.
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