Por Gabriella Freitas
A Hipertensão Arterial (HA) é uma condição habitualmente assintomática. O não controle dessa doença silenciosa gera um processo inflamatório crônico em todos os vasos do corpo resultando na Aterosclerose, ou seja, na deposição de placas de gordura, ocasionando a médio e longo prazo doenças cerebrovasculares (acidente vascular cerebral); cardiovasculares (Infarto do miocárdio); evoluindo para a doença renal crônica (DRC) além de ocasionar a mortalidade precoce.
Os pacientes são classificados como hipertensos quando os níveis de pressão arterial (PA) permanecem acima de 140x90 mmHg. Quando a pressão sistólica (valor da pressão máxima) fica entre 120 a 139 mmHg e a pressão diastólica (valor da pressão mínima) entre 80 a 89 mmHg classifica-se como PA normal ou pré-hipertensão, sendo que tais pessoas apresentam um risco cardiovascular mais elevado em comparação com quem apresenta valores ótimos de PA, que seriam inferiores a 120x80 mmHg.
Estudos recentes têm demonstrado que permanecer em um estado de pré-hipertensão já pode aumentar o risco cardiovascular. O impacto da pré-hipertensão (pressão sistólica entre 130-139 mmHg e diastólica entre 85-89 mmHg) sobre o risco vascular foi descrito em 2001 por Vasan et al, que analisaram 6.859 participantes. Neste estudo, os autores encontraram um aumento no risco absoluto para eventos cardiovasculares (CV). Vários outros estudos foram publicados a partir daí, analisando-se também pacientes considerados com níveis mais baixos (pressão sistólica entre 120-139 e diastólica 80-89 mmHg), como no estudo de Hisayama, de Fukuhara et al, que também encontraram um aumento no risco de doenças CV. (Diretriz Hipertensão 2020; pg. 20)
Como diagnosticamos, investigamos e acompanhamos uma pessoa com PA?
Faz parte da avaliação do paciente com suspeita de HA, a medida da pressão arterial (PA) no consultório e/ou fora dele, utilizando-se técnicas adequadas, equipamentos validados e calibrados, a obtenção de história médica (pessoal e familiar), a realização de exame físico e a investigação laboratorial. Exames complementares serão solicitados a fim de se avaliar se existe alguma causa subjacente, ou seja, causas secundárias que possam colaborar com esse estado de HA, como a apnéia obstrutiva do sono; estenose das artérias renais; alteração nas glândulas adrenais e/ou supra-renais; uso corticoterapia prolongada, uso de esteróides-anabolizantes, além de outros fatores que precisarão ser analisados individualmente.
As medidas de PA devem ser realizadas em intervalos regulares, conforme o paciente. Pessoas saudáveis com uma PA ótima no consultório (inferior a 120/80 mmHg) ou com PA normal (120-129 x 80-84 mmHg) devem ter a PA medida novamente pelo menos anualmente nas consultas médicas. Pacientes com pré-hipertensão (130-139 x 85-89 mmHg) devem ter a PA medida anualmente ou, preferencialmente antes, devido às altas taxas de progressão para HA. Para os demais pacientes, as medidas repetidas da PA em visitas subsequentes no consultório devem ser utilizadas para confirmar uma elevação persistente, bem como para classificar o estágio da HA. Quanto maior o estágio da HA, maior deverá ser o número de visitas e menor o intervalo de tempo entre elas. Assim, pacientes em estágio 2 ou 3 poderão requerer mais visitas com intervalos de tempo mais curtos entre as visitas (dias ou semanas).
Uma outra análise que deve ser realizada em todo paciente com diagnóstico de HA é se existe algum fator que incrementa o seu risco CV e cerebrovascular como lesão de órgãos-alvo (LOA) ou seja, quando já existe complicações em outros órgãos decorrente de uma HA crônica não controlada e não diagnosticada; como por exemplo sinais de hipertrófica miocárdica esquerda no ecocardiograma (alteração estrutural do coração); doença renal crônica ( prejuízo na filtração renal); sinais indiretos de enrijecimento dos vasos.
A decisão do tipo de tratamento farmacológico a ser instituído dependerá do estágio (1,2 ou 3) em que o paciente se encontra. De forma geral, deve-se reduzir a PA visando alcançar valores menores que 140 x 90 mmHg e não inferiores a 120 x 70 mmHg. Tal meta deve ser definida individualmente, sempre considerando a idade e a presença de doença CV ou de seus fatores de risco.
Além do tratamento medicamentoso, a abordagem multiprofissional no controle da PA é de fundamental importância, como a avaliação com um nutricionista e educador físico.
As evidências científicas também embasam algumas condutas recomendadas para HA como a cessação do tabagismo; a melhora do padrão alimentar (instituir uma dieta chamada DASH); a redução da ingesta de sódio; o aumento na quantidade ingerida de potássio e alguns laticínios; a perda de peso; a redução do consumo excessivo de bebidas alcoólicas; a realização regular de atividades e exercício físico; o controle do estresse e o benefício da espiritualidade e religiosidade para o indivíduo.
Não se pode esquecer que o bom tratamento da pressão arterial envolverá uma mudança de estilo de vida completa por parte do paciente e não somente o uso irracional de medicações.
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