Vivemos em uma época em que o extraordinário parece sempre estar distante. Somos estimulados a buscar o grandioso, o visível, o que impressiona e chama atenção. Corremos atrás de conquistas, experiências e sonhos como se a vida só tivesse valor quando ultrapassa o comum. Durante muito tempo, eu também vivi assim: correndo. Correndo para dar conta da rotina, dos filhos, da casa, do trabalho, das contas que nunca esperam. Correndo atrás de sonhos que eu mesma construía e acreditava que só fariam sentido se fossem grandes demais. Eu achava que isso era viver. Mas não era.
Não porque sonhar seja errado — eu acredito profundamente nos sonhos. Acredito que muitos deles são plantados por Deus em nosso coração. O problema começa quando corremos tanto atrás do que chamamos de “extraordinário” que deixamos de enxergar a maravilha do que já temos. E eu tinha muito. Mas não via. Eu morava dentro de um milagre e não percebia.
Hoje, com outra consciência, posso afirmar: o extraordinário nunca esteve longe. Ele sempre esteve escondido no ordinário, esperando apenas que eu mudasse a forma de olhar.
Essa compreensão não veio em um culto lotado, nem em um evento especial, nem em uma experiência espetacular. Ela veio na dor, no silêncio de um quarto de hospital, na fragilidade que me arrancou todas as ilusões de controle. Foi ali, quando tudo parou, que eu finalmente enxerguei.
Lembro-me claramente de um período em que passei a desejar coisas que muitos consideram absolutamente básicas: tomar água sozinha, tomar banho sem ajuda, caminhar alguns passos, fazer uma refeição simples, pentear os cabelos ou usar o banheiro sem depender de alguém. Em determinado momento da minha vida, essas ações tão comuns se tornaram sonhos. E foi aí que eu entendi algo que mudou minha forma de existir: milhares de coisas ordinárias, quando nos faltam, revelam-se extraordinárias.
A Bíblia nos ensina essa verdade de maneira profunda e sensível na história do profeta Elias, registrada em 1 Reis 19. Elias esperava encontrar Deus no vento forte, no terremoto, no fogo — manifestações grandiosas e impactantes. Mas Deus não estava ali. Ele se revelou em uma brisa suave, quase imperceptível. Essa passagem nos ensina algo essencial: o divino não se manifesta apenas no espetáculo, mas também — e muitas vezes principalmente — no simples, no silencioso, no cotidiano.
Antes da enfermidade, eu tinha uma vida rica em muitos sentidos. Tinha meus dois filhos, presentes preciosos de Deus. Cinco irmãos maravilhosos. Meus pais, Reinaldo e Maria, vivos — um privilégio que nem todos têm. Um marido companheiro, um lar estruturado, uma rede de amigos. Tudo isso me cercava diariamente. Mas eu não parava. Não contemplava. Não agradecia. Eu vivia no automático, acreditando que aquilo tudo era garantido. Até que a vida me chamou de volta. E não foi falando baixo.
Há dois anos, tudo virou do avesso. Fui internada às pressas, com dores intensas, difíceis de explicar. Os exames revelaram um tumor grande no intestino. A cirurgia foi urgente. Entrei desacordada no centro cirúrgico e acordei dias depois em um corpo que já não respondia como antes. Fraca. Dependente. Sem controle de funções básicas. Ali começou, de fato, a minha escola do extraordinário.
A primeira pessoa que me viu no quarto foi meu esposo. Eu estava tão debilitada que ele precisou colocar água na minha boca. Um gesto simples. Um copo d’água. Mas naquele momento, eu compreendi algo que nunca tinha entendido plenamente: ser amada é extraordinário.
Vieram os dias da alimentação líquida — água e gelatina. Pode parecer pouco, quase insignificante. Mas, para mim, era motivo de celebração. Porque eu estava viva. Porque cada colherada representava um passo em direção ao recomeço. Vieram também os dias mais difíceis: os banhos com paninho na cama, a total dependência, a impossibilidade de ficar em pé. Quando finalmente consegui sentar em uma cadeira de banho, chorei. Não de tristeza, mas de gratidão.
A primeira vez que consegui levantar sozinha. A primeira caminhada até o banheiro — que parecia uma maratona. O cansaço extremo. A dor constante. O medo silencioso. A esperança insistente. Tudo isso fazia parte do mesmo processo: aprender a viver de novo.E eu não estava só.
Deus me cercou de amor de maneiras que eu nunca tinha experimentado. Meu marido segurou minha mão e, junto com ela, segurou o meu mundo. Meus filhos estiveram presentes. Meus irmãos. Amigos que Deus enviou como verdadeiros anjos. Profissionais da saúde — enfermeiros e médicos — que eu nunca tinha visto antes, mas que cuidaram de mim com dedicação, humanidade e respeito.
Houve um momento que me marcou profundamente: precisei de duas bolsas de sangue. Eu não sei quem doou. Não conheço o nome, o rosto, a história dessas pessoas. Mas sei que, em algum lugar, alguém decidiu doar sangue. Alguém escolheu salvar uma vida. E essa vida era a minha. Isso tem nome: amor.
Durante todo esse processo, algo começou a mudar dentro de mim. O extraordinário, aquele que eu nunca tinha visto, começou a se revelar em tudo. Na água do copo. Na comida simples. No banho possível. Na cama arrumada. Na mão que me amparava. No corpo que, lentamente, respondia. No simples fato de acordar a cada manhã. A vida, insistindo em continuar, revelou-se como o maior milagre.
Hoje, vivo há dois anos com uma bolsa de colostomia. Aguardo, com fé, a cirurgia que irá restaurar meu intestino. E aprendi uma lição que jamais esquecerei: até ir ao banheiro é um privilégio extraordinário.
Não escrevo essas palavras para despertar pena. Escrevo porque fui despertada. E talvez você que lê este texto também precise desse mesmo despertar — não pela dor, espero, mas pela consciência.
Muitas vezes estamos cercados de tesouros, e por estarem sempre ali, tornam-se costume. Viram paisagem. Viram “normal”. Só percebemos o valor quando falta. Ou quando a dor nos obriga a parar. Mas Deus, em Sua misericórdia, recalcula a rota. A gente corre, erra caminhos, tropeça, mas Ele nos chama de volta e diz: “Vou te levar por outro caminho”. Foi isso que Ele fez comigo.
Por isso, se eu puder deixar um convite hoje, ele é simples: pare um pouco. Respire. Olhe ao redor. Agradeça. O extraordinário não está distante. Ele está dentro da sua casa. Na voz de quem te chama. Na comida quente. Na saúde que você tem hoje. Na força que você nem percebe. No amor que te sustenta. Nos milagres que você vive diariamente sem notar.
Se esta mensagem tocar o seu coração, faça essa oração:
“Senhor, abre os meus olhos para ver o que eu ignorava. Que eu não viva no automático. Que eu não perca o extraordinário escondido no comum. Que eu aprenda a agradecer, mesmo antes de entender. Jesus Cristo, só Tu tens o caminho. Eu Te recebo como meu Senhor e Salvador, meu guia. Amém.”
Hoje eu caminho diferente. Com mais calma. Com mais fé. Com mais gratidão. Com mais consciência do milagre que é simplesmente existir. E desejo, de todo o coração, que você também enxergue o extraordinário que sempre esteve aí — talvez apenas esperando que você parasse para ver.
Zilda Maria da Costa Ferreira
Um extraordinário 2026
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